Esta foto é de minha mãe, Dinah. Ela tem 87 anos. Nunca fez uma plástica nem tratamentos cosméticos ou de rejuvenescimento. Só pinta os cabelos com a cor negra da juventude. Quando eu vejo sua testa lisa e o brilho nos olhos, me encho de amor por essa morena que jogava futebol e subia em árvores quando era menina. Ela quis ir para o convento quando sua mãe morreu, mas, felizmente para todos, decidiu casar e ter quatro filhos.
No domingo de festa, com a família reunida, minha mãe pouco falou no almoço. Tem sido assim nos últimos sete anos. Antes ela falava muito, se impunha pelas tiradas espirituosas, pela agilidade de raciocínio e pelo charme. Foi ficando cada vez mais calada, e hoje se expressa mais por carinhos e beijos. Faz sempre as mesmas e poucas perguntas. E nós repetimos sempre as mesmas respostas. Porque ela sofre de Alzheimer e todas as palavras se esvaem no mesmo instante em que são ditas. A cada dez minutos, tudo para ela torna-se uma novidade. Assim, ela soube diversas vezes, por diversos de nós, que estávamos ali porque era Dia das Mães.
Todos sofremos juntos, meu pai mais que todos, pois cuida dela e se agarra ferozmente a sua própria lucidez para lhe dar todos os medicamentos e continuar a ser seu esteio. Tem a mesma idade que ela, 87 anos. Não se separam nunca, nem por uma hora. Os “cuidadores” costumam ser chamados de anjos da guarda. Não vou me estender aqui sobre a doença que atinge 1 milhão de brasileiros; 18 milhões de pessoas no mundo. Um dos mais belos filmes sobre Alzheimer é Longe Dela, com Julie Christie.
A perda gradativa de memória de entes queridos é, primeiro, um choque tremendo, como se ficássemos sem chão – depois, vamos nos conformando, porque não há cura, apenas resistência. Festejamos algumas conquistas do tratamento. Minha mãe mantém intactos a vaidade e seu batom vermelho, o eterno ciúme do meu pai, e a atenção com os filhos e os netos: “Não está com fome? Não está com frio?” O melhor de tudo é que ela continua a nos reconhecer. Como todas as mães, ela é insubstituível.
E aí me vem à mente um texto que recebi recentemente por email, sem saber quem é o autor. Numa sala de reunião de uma multinacional, o diretor nervoso mostra gráficos, agita as mãos e olha nos olhos de cada um de seus gestores: “Ninguém é insubstituível”. A maioria abaixa a cabeça. Até que um braço se levanta. E o diretor estranha.
- Alguma pergunta?
- Tenho sim. E o Beethoven?
- Como assim?
- Quem substituiu o Beethoven?
Quem substituiu Tom Jobim. Ayrton Senna. Gandhi. Frank Sinatra. Garrincha. Beatles. Einstein. Picasso. E essa lista não tem fim.
Não temos nem de longe a genialidade desse time. Mas, se fizermos a coisa certa na vida, seremos insubstituíveis para algumas pessoas. Porque somos únicos.
Para meus filhos, Bruno e Pedro, de 27 e 21 anos, tenho certeza de que sou insubstituível. Eles poderiam ter uma mãe melhor. Ou pior. Igual, jamais.
Ruth
Ao relatar sua história, talvez duvidasse que alguém a invejaria.Pois eu a invejei.Como eu queria ver minha mãe usando baton, falando e interagindo com a família, ao invés de ficar caladinha, sem se expressar.
Visitando estas páginas que falam de alzheimer, vemos como o problema não é só nosso, mas de milhares de pessoas. Que doença ingrata é esta não é mesmo?De uma hora para outra vemos aquelas que nos são insubstituíveis como se fosse um bebê, precisando dos nossos cuidados.
Costumo dizer que minha mãe não sabe quem eu sou, mas eu sei bem quem ela é e o quanto vale para mim.
Que Deus lhes dê muito amor para continuar.
um abraço
maristela
Maristela, continue trilhando este caminho com amor e carinho, que, mesmo que, por alguns momentos, nos cansemos ou fiquemos perplexas, sem entender, teremos a certeza um dia de que fizemos nossa parte. Força.
milaribas85-Prezada Ruth de Aquino,
Li, com muita emoção, seu belo Artigo, “À minha mãe, insubstituível”. De igual modo, encontro-me emocionalmente arrazado, pois minha esposa, com quem sou casado há mais de 45 anos, afora a convivência de namoro e noivado, foi diagnosticada, em julho de 2008, acho que precocemente, com esse terrível mal, DA, do qual sua querida mãe também é portadora. Confesso que jamais pensei passar na minha já longa caminhada, 71 anos, tamanho drama pessoal. Ela, que fez, recentemente, 70, não é sequer aquela pessoa alegre, comunicativa, disposta, boa esposa, excelente mãe e avó, temos dois filhos e dois netos. Durante nossa feliz união, sempre foi cordata e jamais desanimou nos momentos difíceis que, juntos, enfrentamos, que não foram poucos. Quando vejo fotos dela, comigo ou com amigos, fico absolutamente emocionado. Ela continua vaidosa e ainda tem os traços bonitos, pois sempre foi bela e charmosa. Tudo isso tem sido muito penoso para mim, principalmente agora, quando melhoramos nosso padrão de vida e poderíamos desfrutar o que, juntos e por anos, conseguimos poupar. Mas, a vida tem seus contrastes e o destino me reservou um fim melancólico, nessa fase de minha existência. Finalizando, peçamos a Deus que nos dê forças, a mim, a você e aos seus, para superarmos o que, lamentavelmente, aconteceu com nossos entes queridos.
Atenciosamente,
Geraldo Vilar